Em 2024, o Brasil comercializou 5,88 milhões de unidades de ar-condicionado, um crescimento de 38% sobre o ano anterior, segundo dados da Eletros, a Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos.
O país se consolidou como o segundo maior polo produtor do equipamento no mundo, atrás apenas da China. Nunca tantas residências, escritórios e estabelecimentos comerciais tiveram aparelhos de climatização em funcionamento.
O problema é que o crescimento nas vendas não veio acompanhado de crescimento equivalente na cultura de manutenção. Uma parte expressiva dos consumidores que adquiriu o aparelho nos últimos anos nunca realizou uma limpeza profissional.
O filtro acumula poeira, ácaros, fungos e bactérias. O ar que sai do equipamento passa por esse material antes de circular pelo ambiente. O resultado é um ciclo silencioso de contaminação que pode se estender por meses.
O dado mais revelador sobre esse cenário vem da própria Eletros: cerca de 80% dos lares brasileiros ainda não possuem ar-condicionado.
Isso significa que o mercado ainda está em expansão e que a geração atual de consumidores está, em grande parte, descobrindo pela primeira vez o que significa ter e manter um aparelho desse tipo em casa.
O que se acumula dentro do aparelho quando a limpeza não acontece
Filtros de ar-condicionado têm função dupla: climatizar e filtrar partículas do ambiente. Quando o equipamento funciona, ele puxa o ar interno, passa pela serpentina fria, e devolve o ar resfriado para o cômodo.
Nesse processo, partículas sólidas ficam retidas no filtro. Com o tempo, o filtro vira um depósito de poeira doméstica, pelos de animais, esporos de fungos e, em alguns casos, bactérias.
A umidade gerada pelo processo de refrigeração cria condições ideais para o desenvolvimento de fungos. A bactéria Legionella pneumophila, causadora da chamada Doença do Legionário, é uma das preocupações mais sérias em sistemas de ar-condicionado central que não passam por higienização adequada.
Segundo o médico microbiologista André Mário Dói, doutor pela UNIFESP, os principais riscos são doenças respiratórias, especialmente para quem tem alergias, já que poeira, ácaros, fungos e bactérias podem se acumular nos filtros e circular pelo ambiente.
Ácaros e alérgenos inalantes estão entre os maiores causadores de rinite, asma e outras condições respiratórias crônicas.
Quando um aparelho sem limpeza é ligado, o fluxo de ar mobiliza essas partículas depositadas e as projeta para o ambiente. Quem convive nesse espaço inala continuamente esse material.
O impacto no funcionamento do equipamento
Além da saúde dos moradores, a ausência de manutenção afeta diretamente o desempenho do aparelho. Um filtro obstruído força o motor a trabalhar com maior esforço para circular o mesmo volume de ar.
O resultado imediato é o aumento no consumo de energia elétrica. Em médio prazo, componentes mecânicos sofrem desgaste precoce, reduzindo a vida útil do equipamento.
O gotejamento é outro sintoma frequente. Quando a bandeja de condensação não é limpa periodicamente, o acúmulo de sujeira bloqueia o dreno.
A água que deveria ser descartada transborda pela unidade interna e pode escorrer pela parede ou pelo forro.
Em apartamentos, isso gera problemas para o andar de baixo. Em casas, pode comprometer revestimentos e estruturas de gesso.
O mau cheiro ao ligar o aparelho é o sinal mais perceptível de que a limpeza está em atraso. O odor característico vem do mofo que cresce no interior da unidade, especialmente nas aletas e na serpentina.
A função Auto Clean presente em alguns equipamentos mais modernos ajuda a controlar a umidade interna entre as limpezas, mas não substitui a higienização profissional.
O que a legislação brasileira determina
A Lei 13.589, sancionada em 2018, estabelece a obrigatoriedade de manutenção periódica para todos os prédios públicos e privados que utilizam sistemas de ar-condicionado.
A norma exige a elaboração de um Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC), com registros técnicos de cada intervenção realizada no equipamento.
Os parâmetros de qualidade do ar em ambientes climatizados de uso coletivo são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelas normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Empresas que descumprem as exigências estão sujeitas a sanções administrativas.
Hospitais, clínicas, escolas, academias e escritórios se enquadram nas categorias obrigadas a manter registros formais de manutenção.
Para residências, a legislação não impõe obrigatoriedade formal. Mas isso não significa que a manutenção seja opcional do ponto de vista da saúde.
O intervalo recomendado pela maioria dos fabricantes para a limpeza dos filtros varia de 15 dias a três meses, dependendo da frequência de uso e do volume de partículas no ambiente.
A higienização completa, que inclui serpentina, bandeja e dreno, deve ser feita por profissional técnico.
O que a limpeza profissional envolve na prática
A higienização de um aparelho split residencial vai além da lavagem do filtro. O processo inclui a limpeza da serpentina evaporadora, que é a parte responsável pelo resfriamento do ar e onde o mofo tende a se concentrar.
Inclui também a desobstrução do dreno, a verificação da bandeja de condensação e a aplicação de produtos bactericidas e fungicidas no interior da unidade.
O trabalho exige desmontagem parcial da unidade interna e o uso de equipamentos adequados para não danificar as aletas metálicas da serpentina, que são frágeis.
Segundo uma empresa que limpa ar condicionado em São Paulo, a frequência ideal de limpeza completa é semestral para ambientes residenciais com uso regular, e trimestral em locais com alto fluxo de pessoas, como consultórios, salas de espera e escritórios com muitos funcionários.
Outro ponto frequentemente ignorado é a unidade externa, a condensadora. Ela acumula folhas, poeira e insetos nas grades de ventilação.
Quando obstruída, perde capacidade de dissipar o calor, o que aumenta a temperatura de trabalho do compressor e reduz sua vida útil.
A limpeza da condensadora é mais simples, mas exige jato de água direcionado às aletas externas para remover o entupimento sem dobrar as peças.
Quando o aparelho para de funcionar de repente: o que verificar antes de chamar a assistência técnica
Uma das situações mais frustrantes para o consumidor é ligar o ar-condicionado e não receber ar frio, ou perceber que o aparelho desliga sozinho após alguns minutos. Antes de acionar a assistência técnica, alguns pontos podem ser verificados pelo próprio usuário.
O primeiro é o filtro. Um filtro completamente entupido bloqueia o fluxo de ar a ponto de ativar o desligamento automático de proteção do equipamento.
A limpeza do filtro, que pode ser feita com água corrente e deixado secar à sombra, resolve uma parte considerável das ocorrências relatadas como pane.
Outros problemas comuns incluem falhas no sensor de temperatura, travamento do compressor por calor excessivo e erros de código exibidos no display.
Para quem usa equipamentos da marca, entender ar condicionado Samsung e os códigos de erro mais frequentes ajuda a identificar se o problema pode ser resolvido por manutenção preventiva ou se demanda assistência especializada.
Problemas elétricos, como variação de tensão na rede, também causam desligamentos e travamentos. Instalação de um protetor de surto na tomada do aparelho é uma medida simples que preserva a placa eletrônica, componente com custo de reposição elevado.
Em regiões com histórico de quedas de energia frequentes, o protetor deixa de ser opcional.
Boas práticas para quem quer prolongar a vida do equipamento
Manter o filtro limpo é o cuidado mais simples e com maior retorno. Em residências com animais domésticos, a periodicidade deve ser menor, pois pelos obstruem o filtro com mais rapidez.
Em casas próximas a obras ou estradas de terra, o mesmo vale: o volume de partículas no ar interno é maior e o filtro satura mais rápido.
Manter as janelas e portas do cômodo fechadas enquanto o aparelho está ligado reduz o trabalho do compressor e o consumo de energia.
Aparelhos ligados em ambientes abertos perdem eficiência e precisam trabalhar continuamente sem atingir a temperatura programada, o que desgasta mais o motor.
Desligar o aparelho pelo controle remoto, e não diretamente pela tomada, permite que o ciclo de secagem interna seja concluído antes do desligamento total. Aparelhos com função Auto Clean fazem isso automaticamente.
Em modelos sem essa função, o hábito de deixar o ventilador funcionando por alguns minutos após desligar o resfriamento ajuda a secar o interior e reduz o acúmulo de umidade que favorece o mofo.
O aparelho que climatiza pode ser também o que adoece
O ar-condicionado melhorou a qualidade de vida de uma geração inteira de brasileiros. O calor extremo que o país enfrentou nos últimos dois anos tornou o equipamento ainda mais indispensável em residências, comércios e escritórios.
Mas a popularização do aparelho não veio acompanhada de informação suficiente sobre o que é necessário para mantê-lo funcionando sem colocar em risco a saúde de quem vive ou trabalha no mesmo ambiente.
A limpeza regular não é custo, é manutenção de um investimento. Um aparelho bem cuidado dura mais, consome menos energia e não representa risco respiratório.
A conta de um serviço de higienização profissional semestral é consideravelmente menor do que o custo de um compressor queimado, de uma placa eletrônica danificada ou de meses de tratamento para rinite agravada por fungos circulando no ambiente.
Com 80% dos lares brasileiros ainda sem ar-condicionado, o mercado deve continuar crescendo nos próximos anos. A cultura de manutenção precisa crescer no mesmo ritmo.
